Inovação. Essa palavra definitivamente está na moda, e muitas empresas a usam em seus slogans e comerciais. Porém, quais delas são realmente inovadoras? E o que isso significa?
Muita gente ainda associa inovação simplesmente ao avanço tecnológico de um produto. É comum citarem o iPod, o iPhone e o iMac como produtos inovadores, mas a grande inovação da Apple não está somente nos produtos, mas na integração do seus hardwares com seus softwares em modelos de negócios que fazem sentido para o consumidor. O iPod jamais teria o sucesso que tem se não houvesse o iTunes. A Apple é extremamente eficaz em atender necessidades que os consumidores nem sabiam que tinham. Quem acompanha a empresa sabe que boa parte do segredo desse sucesso está em simplificar o que muitos outros fazem de forma complexa. Em outras palavras, pensar o óbvio.
Jonathan Kaplan e Ariel Braunstein viram uma oportunidade ao notar que, enquanto a indústria de filmadoras digitais se voltava em desenvolver câmeras mais modernas, complexas e, consequentemente, mais caras, os consumidores não tinham a opção de um produto mais simples, de qualidade boa o suficiente para quem não é profissional ou semi-profissional. Em 2007, a Pure Digital lançou a Flip Ultra. Em poucos meses, o produto de qualidade razoável, extremamente simples de usar e com preço muito menor que a concorrência (US$ 150,00 comparado a US$ 800,00 do preço médio de uma câmera Sony), abocanhou 17% do mercado de filmadoras nos EUA. Esse exemplo mostra que inovação não está necessariamente relacionada ao desenvolvimento de uma nova tecnologia, mas pode estar em modelos de negócios e ideias simples que ninguém conseguiu enxergar antes.
Apresentando a nova Flip MinoHD:
Video da campanha viral da Flip. Inovação também na comunicação:
Esse caso ainda serve de resposta para os assassinos da inovação, que acreditam que se a ideia realmente é tão boa, alguém já teria tido.
Quem diria, há 15 anos atrás, que a Sony perderia a liderança mundial no mercado de eletrônicos para a Samsung? A empresa ainda se tornou a marca global número 1 em eletrônicos e ultrapassou a Motorola no mercado de celulares em 2007. Hoje, a Samsung tem cerca de 26% do mercado de TVs digitais, seguida de 15% da Sony. Um dos fatores que causaram esse sucesso da Samsung foi o investimento no design de seus produtos, depois de constatar que o consumidor dá valor não só a sua qualidade, mas também à sua beleza. Em muitos casos, se colocar no lugar do consumidor e acompanhar de perto pessoalmente o seu comportamento, é melhor do que qualquer pesquisa.
Muitas empresas grandes, mesmo gastando milhões em P&D, tem dificuldades de constatar o óbvio. Eu, pessoalmente, já me irritei bastante com um Palm que não tinha uma chave que bloqueasse o teclado e com a agenda de um celular Motorola que só buscava pela primeira letra. Ambas empresas investem alto em P&D, mas não conseguiram detectar falhas ridículas de seus produtos mais vendidos. Coincidentemente, ambas as empresas foram do céu ao inferno nos últimos anos.
Numa matéria recente na Época Negócios, o presidente da Unilever Brasil, o holandês Kees Kruythoff, diz o seguinte: "A gente tem um negócio muito simples: vender sabão e sopa. Mas a gente também tem pessoas muito inteligentes que criam coisas complicadas. O desafio é tornar simples coisas difíceis".
Inovação, portanto, deve estar não só na tecnologia, mas na comunicação, no modelo de negócio, no design e, principalmente, na gestão. Como lembra o professor e consultor Rowan Gibson, quando a Apple lançou o Macintosh, em 1984, a IBM gastava pelo menos cem vezes mais em P&D. Já tive reunião com profissionais que tinham um discurso conceitual lindo, recheado de termos complicados e estudos complexos sobre o consumidor, mas, misteriosamente, toda essa informação bloqueava sua capacidade de compreender coisas simples.
Adoro o caso da melancia quadrada. Numa quebra de paradigma fantástica, produtores japoneses cultivaram a melancia numa forma quadrada e tiveram enormes economias em transporte e armazenamento. Além de despertar a curiosidade por sua forma inusitada, a fruta ganhou a preferência de boa parte dos consumidores por ser mais útil e prática que a melancia normal. O resultado foi um sucesso de vendas com uma margem de lucro maior.
Em todo o caso, é bom reforçar que se a inovação não for relevante para o consumidor, nem pendurando uma melancia quadrada no seu produto irá torná-lo um sucesso. Entre uma ideia simples e outra complexa, eu fico com a simples, óbvio.
